Relatório de Auditoria Médica Analítica - SIH / SUS / RJ - 1995

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Ministério Público Federal

 

Procuradoria  da República no Estado do Rio de Janeiro

 

 Auditoria Médica Analítica

 

S I H / S U S/ R J

 

Relatório Geral

 

1995

 

  A P R E S E N T A Ç Ã O

 

 

 

   Os  rumos tomados pela  Assistência Médico-Hospitalar oficial prestada ao contribuinte  em nosso  País  vêm,  nos últimos  anos,  demonstrando  um sentido  crescente do mercantilismo, de par com um descenso na  qualidade dos serviços prestados.

 

 

                      O  Poder  Público  dedica  a  maior parte  do  seu  tempo  administrando  a  consecução  de numerário para o setor. Este, quando havido,  não recebe a  devida atenção no que tange ao seu  aquinhoamento  e muito  menos   ao retorno  que proporciona.  Poderíamos mesmo  considerar  que tais fatos são,  já,  de  domínio público,  não  só  pela divulgação na  mídia  como por trabalhos   específicos produzidos por órgãos de  cúpula em nosso País.

 

 

                    O  Tribunal  de  Contas  da   União  (TCU),  em sua decisão 137/93 de   20/04/93,  determinou inspeções extraordinárias que, realizadas  no  extinto  INAMPS,  abrangeram o Sistema Único de Saúde  (SUS).  A  consolidação  dessa  atividade encontra-se no  relatório TC-005.650/93-0, apreciado na sessão de 14/12/1993.

 

 

                    Em  07/06/94 o  Congresso  Nacional  resolveu  instituir, por ato da  Presidência  da  Câmara dos  Deputados uma " Comissão Parlamentar de   Inquérito (CPI) destinada a apurar as inúmeras irregularidades do  Instituto  Nacional de Assistência Médica da Previdência Social - INAMPS/SUS".

 

 

                    O conteúdo dos referidos documentos  é   grave.   As   propostas   e    recomendações   neles apresentadas,  se postas em prática, seriam  de  grande  valia. Entretanto, apesar dos relatórios volumosos e da  gravidade dos respectivos contentos nada mudou, no  que  concerne  a  pertinência  na  aplicação  dos    recursos destinados a assistência médica no Brasil.

 

 

                    Considerando os recursos em números  absolutos gasta-se muito  (cerca de 3,5 bilhões de reais estimados  para  as internações no  Brasil  em   1995). Relativamente gasta-se pouco, cerca de  25  reais  por  habitante ano. Porém,  gravemente,  gasta-se mal.

 

Os   mecanismos   de   controle   e  avaliação são tênues, cada vez  mais fragilizados, dando ao  observador acurado a nítida impressão de um  acordo  entre o pescoço e a guilhotina. Aquele representando  o  erário  e  esta os setores  que recebem o  domínio  e  a posse   desses  recursos.  Se  impressão  for   devemos  desfazê-la mas se, ao revés, tal acordo for verdadeiro  cumpre   triturá-lo.   São    deploráveis   os    traços característicos  dessa  atividade,  representados  pela esterilidade  e  pela inércia com que se  exercitam  os  ditos mecanismos.

 

 

                    Evidentemente,  a  dificuldade   da  prova  caberá a nós, Ministério  Público e auditores.  É sobre  nós  que pesam  as  dificuldades  em  obtê-las,  elencá-las   e,   sobretudo,  fazê-las   produtivas   -  geradoras   de   punição.  Não   nos  deve   bastar   o ressarcimento  pecuniário.  É  irresignável  apenar  os  autores, bem como, habilitar o SIH para que tais  fatos sejam expurgados antes  de gerarem prejuízos. Alexandre, o  Grande,  já enunciava: "Não se prendem   ladrões  de cavalos  simplesmente porque roubam cavalos, mas,  sim,  para que não mais se roubem cavalos".

 

 

                    Neste  trabalho,  que só  se  torna  viável  pelo  estímulo  que nos   concede  o  Ministério Público Federal, com referência  especial ao  Dr. André  Terrigno  Barbeitas,  ocupamo-nos  exclusivamente   com  fatos, sempre  materializados em provas documentais. Não nos preocupam as pessoas; bem que  as nossas tenham sido constantemente alvo de agressões insólitas, injustas  e descomunais.  Em  nossa  carreira,  perante  as  nossas  consciências,   nada  nos  honra  mais  do  que   essas  investidas furiosas.  Suas  origens, aliadas  às  suas  intenções,  são  para nós a dignificação  de  tudo  que  produzimos. São, também,  a certeza de que ao colidirmos com vastos e poderosos interesses particulares,  estamos defendendo  o  interesse geral. Na realidade,  o nosso  mister é promover  a exumação da verdade. Não obedecemos a qualquer tipo de pressão. Cedermos,  seria  prevaricar aos  nossos deveres.  Com  certeza,  o  nosso  honroso  paradeiro  no Ministério Público Federal é  consequência da nossa conduta.

 

 

                    Sob  nossa  ótica,  o  problema  da  assistência  médico- hospitalar  oficial é de  gerência. As  leis, regras e normas são mais do  que  suficientes  para  uma gestão eficaz. Entretanto, o administrador  em qualquer  patamar  hierárquico - Federal,  Estadual  ou  Municipal - quando aplica o estipulado, não  deve e  não pode  reservar-se  o direito de obedecê-las  em certos  pontos e  derrogá-las em outros. Ao seu arbítrio pessoal não   cabe   alterar   os   desígnios    expressos   dos legisladores.   Tal  conduta,  mais  comum  do  que   o  imaginado,   gera sempre uma quebra da harmonia  que  se traduz em grandes males  emergentes para o coletivo, com benefícios  subterrâneos para o particular. Ao   mutilar as  regras, o reformador oficialmente não  credenciado,  frequentemente   em conluio com  minorias  indesejáveis, faz  com que se tornem ambos  beneficiários enquanto,  a pospelo,  a  sociedade  paga  o  débito  na  conta.  Na  administração  da Saúde Pública, os interesses do  povo  devem  ser o "A" e o "Z",  o princípio e o fim.  Nenhuma autoridade, seja qual for, deve co-participar, com  ele, nessa   supremacia.  Se  assim  não ocorre,   não   há  organização   financeira, e consequentemente saúde,  que resista a essa carcoma.

 

  Não   nos   limitamos   a    emitir  opiniões.    Neste    trabalho     articulamos    fatos, multiplicamos  documentos,   amontoamos    algarismos,  procurando  sempre  entronizar  a  verdade. 

                    No  corpo  deste  relatório   estão  consignados  fatos  que só se  tornaram  possíveis  pela ausência  de  um controle  mínimo  nas  despesas   com  internações  hospitalares. São episódios,  infelizmente  numerosos, que   estarrecem qualquer observador, mesmo não versado. Constituem indícios  inegáveis de que  seus perpetradores estão imbuídos da certeza da  impunidade, aliada  à desídia com a coisa pública. São  indicativos  sérios  de  que além de  terem  sido  rompidas  diversas cláusulas contratuais, foram silenciados os   protestos das consciências e anestesiado o olfato moral.

 

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Procuradoria da República no Estado do Rio de Janeiro

 

Relatório de Auditoria Médica Analítica

 

S I H / S U S / R J

 

 

                    No   cotidiano   da  Auditoria   Médica   que  cumprimos     por    determinação explicitada    no  ofício PR/RJ/GAB/AB/014/93, reside o motor deste trabalho. Vínhamos  até  então,  no âmbito do Sistema de Informações  Hospitalares  (SIH),  laborando   por   unidades.   Procurávamos,    assim,   identificar elementos que, de forma isolada e particular, recheavam o SIH de  ilícitos altamente nocivos ao erário.

 

                    Observávamos  no  singular  sem,   em  momento  algum, traçarmos um quadro do  conjunto. Evidentemente, é do couro que  sai  a correia e, portanto, se aquele for  devidamente     inspecionado qualquer exemplar desta apresentará textura de boa qualidade.

 

                    Os mecanismos de auditoria médica, controle e  avaliação  de  custos  e  qualidade   da  assistência   nosocomial prestada  ao  brasileiro  podem,  se  bem aplicados,  coibir  os  excessos na quantidade e as carências na qualidade.

 

                    O  SIH já devidamente  informatizado  enseja,  mediante  um  modesto  incremento  em  sua  despesa,  que através   de   uma  auditoria  contínua  se  promovam    economia significativa  de custos - com certeza - e vidas,  provavelmente.  Oferece,   ainda,  ao   observador  atento,  a  possibilidade   de identificar   internações impertinentes,  desnecessárias e até inexistentes. Ademais, se considerarmos a plêiade de  auditores  médicos  insertos nos  quadros funcionais do Ministério da  Saúde, bastaria que um número relativamente modesto  desses profissionais fossem  efetivamente  designados para a sua  área  específica  de  trabalho. Estaria, assim, completo o arsenal de resguardo do SIH.

 

                    A Autorização de Internação Hospitalar  (AIH)  é, intrinsecamente, um documento  que tanto pode ser libelar  como defensivo. Traz em seu bojo ítens que, criteriosamente  analisados e  combinados  entre si, podem produzir,  como  veremos  adiante,  instrumentos de  controle, de avaliação, de defesa e de  acusação. São  indiscutivelmente provas materiais de tudo que  o  hospital  beneficiário cobrou e recebeu, como também, ao revés, de tudo que  o hospital cobrou, recebeu e não fez.

 

A qualificação de certo ou errado, com o  uso  do  SIH,  torna-se  relativamente  fácil. O  Sistema  deveria  ser competente para se  defender de alguns absurdos tais como:   parto em homem, orquite em mulher, etc. No momento, sob nossa ótica,  o  SIH  tem  armada   em seu cerne uma rede  cujas  malhas  são  muito amplas,  esgarçadas mesmo.  Cumpre a nós,  bem como  a  todos  os profissionais  que militam no campo da auditoria  médica  oficial  angustiá-las,  a  ponto tal que os erros  por  ventura  passantes  causem ao  erário perdas  desprezíveis. É preciso,  todavia,  ter sempre em mente que a cada ação corresponderá uma reação igual  e  de sentido contrário. Para cada nova restrição, ocorrerão sempre  tentativas  para tornar essa rede ineficaz.

 

                    Acreditamos que a introdução de críticas mais  abrangentes  no  SIH, poderia  efetivamente trucidar até  90%  das fraudes atualmente cometidas. Longe de nós a presunção de  esgotá- las  pois  que seus autores, ao contrário, infelizmente,  do  que  ocorre  de forma  significativa no serviço público, mantêm  a  sua criatividade em constante processo de evolução.  É certo,  também, que  a adoção de tais medidas depende de  determinação  política,  uma  vez  que as condições técnicas para tal existem e são de  boa qualidade.  O  SIH é competente,  porém, a  sua  operacionalização deixa muito a desejar.

 

                    Por que não se introduzem no Sistema críticas  que  eletronicamente descartem  disparates, como por  exemplo  uma alta de cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea  com  menos de  24  horas  de internação? Por que o  Sistema  permite  que  o  indivíduo  depois   de falecido em uma AIH,  seja  reinternado  em outra? Por que o Sistema aceita e remunera  passivamente casos  de teratologia  explícita?  A  este respeito, as  AIH  1262872700  e  1372997329  se  constituem  em exemplos típicos  da  carência  de  controle existente no SIH.  Foram internações pagas para  "orquite e  epididimite" a primeira e "câncer de testículo", a   outra.  Em comum  e  surpreendentemente, os dois indivíduos  são declarados  como  sendo  do   sexo  feminino.  A  quem  beneficia  essa   rede dilacerada?

 

                    É claro que o Departamento de Informática  da  Fundação  Nacional de Saúde  (DATASUS) é o executor das  críticas, eventualmente apostas   ao  sistema.  É cristalino   que    as determinações  devem ter suas nascentes no Ministério  da  Saúde,  mais  precisamente  no,  mandatório por lei, Sistema  Nacional  de Auditoria Médica.

 

                    Em  nossa  opinião,  um  casamento  entre   a  auditoria  e o DATASUS, se bem  feito, poderia gerar  frutos  que, com  certeza,  tornariam a alguns menos ricos e  melhorariam   as condições da assistência médico-hospitalar para todos.

 

                    Seria  ideal  e benéfico que os  gestores  da  assistência médico-hospitalar  operassem tecnicamente uma política de Saúde, e de forma alguma se deixassem gerenciar por   políticos na Saúde.

 

                    Para  uma  população que segundo o  IBGE,  em  1994,  alcançou   13.182.298 habitantes, o Estado  do  Rio  de Janeiro possuía cadastrados no SIH 403 hospitais  considerados  em atividade. Parte desses estabelecimentos, garimpados em função de  discrepâncias  ocorridas  em determinados indicadores  médicos  e  nosocomiais, apresentam   distorções importantes.  Evidenciam  um padrão  de comportamento que pela sua frequência  demonstra,  mais do  que a certeza da impunidade, uma escola de  condutas seguida  por um número cada vez maior de adeptos.

 

                    Em   nossa   prática   rotineira,    sentimos  necessidade de adentrar não só no  perfil nosológico do Estado  do Rio  de Janeiro mas, também, nos métodos operacionais da   maioria dos hospitais ligados ao SIH e no "modus operandi" da, felizmente  ainda,   minoria   desses  prestadores  de  serviços,  essa   sim, deletéria e alvo principal do nosso trabalho.

 

                    Trataremos agora, de um universo composto por  1.106.714  internações pagas  pelo SIH no período de  dezembro  de 1993   a   novembro  de  1994.  São doze   meses    imediatamente consecutivos que formam, em seu conjunto, um ano corrido.

 

 DA  DISTRIBUIÇÃO  (Anexo I)

 

                    O  Ministério da Saúde preconiza  e  trabalha  com  uma  expectativa  de que 10%   da  população  seja  internada anualmente.  Claro  é  que, por não ser a Medicina  uma   ciência exata,  mas,  sim,  uma arte, não se espera  que  coadune  com  a  exatidão dos  números. Entretanto, não se deve afastar por  demais do  seu  "em  torno". Admitir que na   ausência  de  epidemias  ou tormentas da natureza, grande parte da população de um   município ou  de uma região recorra a serviços hospitalares, seria o  mesmo  que acreditar ver, em nosso País, o sol à meia noite.

 

                    Considerando o confronto entre a população do  Estado  do  Rio  de Janeiro e o  número de  internações  pagas  no período  de um ano, deduz-se que em 1994 foram internados   8,395% dos   seus   habitantes.  Aparentemente  ter-se-ia   cumprido   a  expectativa  do  Ministério da Saúde quanto à assistência  médico- hospitalar no Estado.

 

                    Os  critérios  distributivos  das  AIH  foram  obedecidos,   com  certeza,  da esfera  federal  para  a  estadual. Lamentavelmente, no Estado do Rio de Janeiro o aquinhoamento   dos municípios não ocorre da forma preceitual. Produziram-se,  assim,  aberrações que  permitiram ao município de Bom Jesus do Itabapoana internar 18.693  pacientes, de uma  população de 30.356 habitantes (61,579%).  Este  é  apenas  um  dos  exemplos  que  poderão   ser encontrados  no Anexo I, que acompanha este relatório. Por  dever  de  ofício, esclareça-se  que pesquisas exaustivas  realizadas  na imprensa  escrita, no período enunciado, não   encontraram  nenhum fato   excepcional   que  justificasse   as   extrapolações   nos percentuais  das respectivas populações internadas, arroladas  no  referido  anexo.

 

                    Como  se vê, é fato que a morbidade em  nosso  estado  desobedece  a bússola da  natureza, mas  certamente  segue orientações   outras.  Indubitável  é  que  a distribuição   dos  "talonários  de  faturas  " (AIH) não ocorreu,  não  ocorre,  não  acorreu e não acorre às verdadeiras necessidades dos munícipes.

 

                    O     conteúdo    do    Anexo    I     estuda  pormenorizadamente, em obediência  estrita aos dados cadastrais do SIH,  os  quantitativos  máximos  de internações  possíveis,  as  internações  pagas,  os  percentuais  de  uso  da  capacidade  de  internação,  bem como os  percentuais da população internada e  as taxas de ocupação geradas. Tudo isso, por unidade  hospitalar, por município  e no Estado do Rio de Janeiro, considerando  ainda  as  hipóteses de  avaliação por leitos existentes (LE) ou  contratados (LC). Mostra,  igualmente,  os  dados   cadastrais   oficialmente gravados  no  SIH. Estes, de par com os parâmetros  ditados  pela  portaria  MPAS/INAMPS-3046 de 20 de julho de 1982, constituem  os  alicerces para a confecção do referido anexo.

 

                     Uma análise deste anexo nos leva a  concluir  que  a distribuição das AIH pelos  municípios do Estado do Rio  de Janeiro,  administrada  pela  Secretaria de Estado  de  Saúde   do Estado do Rio de Janeiro, não obedece aos critérios do Ministério  da Saúde e muito menos  às necessidades das populações  municipais componentes  da  clientela alvo. Conduz-nos ainda  a crer  que  os princípios  seguidos,  se  ligaram  muito  mais  às   capacidades  instaladas  e  ao   jogo de forças políticas. Dissecar  mais  esses indícios  seria descer à  assertivas   exclusivamente  materiais, pecuniárias. Seria vislumbrar a existência de uma traficância  de  AIH em branco.

 

                    Fato  é que a maioria dos  hospitais,  sempre  que  o  município  foi bem  contemplado, conseguiu  vender  a  sua capacidade  instalada  e não raro alocá-la em até  oito   vezes  o possível.

 

Para evitar contraditórios, esclarecemos  que  só foram considerados em nossa  análise os percentuais  originados de  leitos  existentes, oficialmente cadastradosno SIH.  A   este respeito  cabe  um  reparo,  importante  sob  nossa  ótica,   aos  desempenhos  do    DATASUS e do Ministério da Saúde.  Aquele,  como orgão  efetor e este, como normatizador  dos dados cadastrais.  Em ambos,  existem  equipes  cuja  atribuição  maior  é  manter   os  referidos   dados  em  tempo  real.  Esses  grupos  de   trabalho  evidentemente têm custos, que  seriam irrisórios se as respectivas funções  fossem devidamente desempenhadas. A   obrigatoriedade  da precisão cadastral deve constituir-se em pedra angular do SIH. Se assim   for, poder-se-á eletronicamente, mediante a introdução  de críticas  concernentes  à  taxa de   ocupação  e  à  produtividade preconizada  oficialmente, impedir que extrapolações  monumentais sejam  indevidamente  remuneradas. Deveria haver  uma  fidelidade  obrigatória   no cadastro do SIH, com sanções de peso  a  qualquer dos  elementos envolvidos na sua desatualização -  Ministério  da Saúde,  DATASUS e o prestador de serviços. Atualmente, um diz   que mandou,  outro que não recebeu e o terceiro que não  viu as alterações, inclusões ou exclusões de dados cadastrais.  Assim,  são mantidos no SIH  hospitais com duplicidade de CGC, em  virtude de fusões ou incorporações com ou por órgãos  oficiais. Encontram- se, outrossim,  cadastradas empresas hospitalares que  para  não  serem   alvo  de  acertos  de contas  decorrentes  de  fraudes  ou adiantamentos,  deixam  de produzir e  portanto  nulificam o  seu faturamento.

 

                    Apenas  para  exemplificar,  citaremos   três  casos  de    muitos que ocorreram  exatamente pelo fato do  SIH  não filtrar o trivial:

 

1) PAM Psiquiátrico Centro CGC 42498717002280 (fls 19)

            Uso da capacidade de internação = 800,00%

                               Taxa de ocupação    =  57,32%

 

2) Fundação Méd.Hospitalar S.Silvestre CGC 30597223000149 (fls 1)

                 Uso da capacidade de internação =  690,49%

                                      Taxa de ocupação  =  453,26%

 

3) Casa de Saúde República da Croácia CGC 33726779000186 (fls 16)

                 Uso da capacidade de internação =  376,47%

                                      Taxa de ocupação  =  137,42%

 

                    Como  o Sistema paga tais aberrações?  Nesses  casos,  como  em tantos outros,  foram desprezados  os  parâmetros oficiais (Port.3046) e também desobedecido um princípio  físico  - conteúdo  maior que o continente. Assim, pode-se afirmar que,  ou  os  pacientes  passaram às pressas pelo hospital ou  sequer  foram internados. Outra visão dos fatos  desenharia o uso dos leitos  em especialidades diferentes daquela em que foram cadastrados. 

                    As  críticas eletrônicas, se introduzidas  em  quantidade  suficiente  no  SIH, não  poderiam  impedir  de  forma definitiva  que tais fatos ocorressem, mas certamente  inibiriam  sua  remuneração. Os custos dessa omissão são muito  elevados.  O  curioso  é que o Ministério  da Saúde, no caso o provedor,  parece ignorar essas possibilidades. Ao contrário, alguns  prestadores de serviços,   sejam eles privados, filantrópicos, universitários  e  até  oficiais,  pelo  visto, sabem o valor dessas ausências  e  as aproveitam muito bem.

             Os dados imediatamente retro podem fornecer a  um  observador apressado a  imagem de uma produção febril, de  par com  uma produtividade alentada. Entretanto, o Anexo  I  demonstra com  precisão o comportamento real, no Estado do Rio de  Janeiro,  nos   municípios  e nos hospitais, individualmente.  Assim  sendo, para  um  conjunto  de 13.182.298   habitantes  foram  efetuadas  1.106.714   internações,  equivalentes  a  8,395%  da  população.  Aparentemente  foram  obedecidos os  parâmetros  apregoados  pelo Ministério  da  Saúde.  Lado outro, é possível  tirar  do  aludido documento conclusões diferentes, abaixo enumeradas:

 

Internações

Uso capacidade

Internações

Natureza do Hospital

Máximo possível

Pagas

máxima

no Estado(RJ)

Próprio

122.815

31.769

25,87%

2,87%

Contratado

750.652

539.974

71,93%

48,79%

Federal

55.311

11.527

20,84%

1,04%

Estadual

202.624

62.510

30,85%

5,65%

Municipal

262.079

37.651

52,52%

12,44%

Filantrópico

296.468

223.235

75,30%

20,17%

Universitário

13.247

13.908

104,99%

1,26%

Universit.c/ Fideps

199.827

86.140

43,11%

 7,78%

 

 Salta aos olhos que as entidades  contratadas  e filantrópicas, conseguiram os  maiores índices de  produtividade com  respectivamente 71,93% e 75,30% de uso das suas   capacidades máximas  de  internação. Significativos são,  também,  os  baixos  percentuais deste  indicador apresentados pelos hospitais próprios (antigo  INAMPS)  e federais, respectivamente   25,87%  e  20,84%. Entre   estes  extremos  encontramos  os  hospitais   municipais,  universitários e estaduais.

 

                    Quando nos fixamos na contribuição percentual  de cada grupo de hospitais  analisados, verificamos que 68,96% das internações  realizadas no Estado ocorreram em   estabelecimentos contratados e filantrópicos. Lado oposto, os hospitais próprios e  federais,   juntos, responderam por somente  estarrecedores  3,91% dos doentes internados.

 

                    A  que atribuir tais desníveis? Estariam  por  ventura  os leitos hospitalares  governamentais  desativados?  Não teriam  sido emitidas AIH para todos os atendimentos   realizados? Em nosso juízo, há uma imbricação de fatores cujo catalisador é o  serviço público  onde se paga pouco e, dos seus agentes,  cobra-se nada.  Emitir  AIH é trabalho; atender ao   paciente  é  trabalho; ativar   ou  reativar  leitos  é  trabalho.  Ao  incremento   das  internações   não corresponde aumento de ganhos para  o  servidor. Não   há, ao  contrário  do  setor   privado,  nenhum   incentivo pecuniário   à   produtividade.  Explica-se,   dessa   forma,   a  desativação  de  leitos.  Uma gerência  competente  removeria  os profissionais ociosos para  locais onde pudessem produzir.  Assim, porém,   não  ocorre:  desativam-se  leitos  mas    mantêm-se   os profissionais,  principalmente médicos, com lotação e  ociosidade  garantidas e,  dessarte, não mais mal remunerados, uma vez que  em troca   de  nada  qualquer  paga  é   muito.  Exemplo  típico   de influências   deletérias  foi,  em nosso  Estado,   o   concurso  específico  realizado para selecionar médicos a fim de  prover  o  Hospital da Posse, no  município de Nova Iguaçu. Poucos  aprovados exerceram suas atividades no local  especificamente previsto pois, tudo  indica,  os  "padrinhos"  da  maioria  consideraram-no    um longínquo município. Daí, terem sido encaminhados para  hospitais das  zonas central e sul  da cidade do Rio de Janeiro, que  já  se encontravam relativamente bem servidos de pessoal.  Mais uma  vez, a falha é gerencial e, tudo indica, por influências atavicamente  políticas. Não  por motivos outros, na área de saúde, no Brasil, a lotação  de pessoal sofre incremento cada vez  mais acentuado  nas atividades meio, tornando repletos os gabinetes. Não pregamos, ao  contrário  do  que  possa  parecer,  para  o  serviço  público  a  remuneração  por  ato médico.  Essa tentativa de  triste  memória, resultou,  no  passado, em  procedimentos  médico-cirúrgicos  de indicação discutível e até desnecessários, que colocaram em risco  muitas vidas. 

 

                    Enunciamo-nos,    com   certeza,   por    uma  remuneração  digna aos servidores  da área de saúde, em  troca  da qual sejam apurados única e exclusivamente trabalho e   dignidade. Segundo o apóstolo São Paulo: "Aquele que não quer trabalhar  que  não coma".

 

                    Se  remetermos  nossa  atenção  ao  Anexo I  constataremos  que, não raro,  hospitais internaram 20%, 30%,  40% ou mais da população do município, no ano. Essas  distorções  mais importantes,  sempre  que  não se refiram  a  hospital  único  no  município,   tornam-se agravadas quando se associam com  taxas  de ocupação superiores a 100%.

 

                    Ressalte-se  que é intrigante o fato  de  que  determinados  hospitais  em  certos   municípios  tenham,   ambos, hospitais e municípios, acessado às AIH. É indubitável que  essas  ocorrências  resultam  de  uma sucessão de  erros  da  qual  está  excluída a esfera federal, mas  são partícipes os elos estadual  e municipal.  A  Secretaria Estadual de Saúde  se  envolve   quando, desrespeitando  critérios estabelecidos, concede ao município  um  quantitativo de AIH  superior aos 10% do seu número de habitantes, por ano. Por sua vez, o município erra quando  atribui ao hospital um  número  de  AIH  superior  à  sua  capacidade  de   produção,  respeitados  que  devem ser os parâmetros oficiais,  de  par  com indicadores hospitalares  clássicos.

 

                    O Ministério da Saúde por outro lado erra,  e  o  faz  de  forma  grave,  quando   despreza  o  seu  arsenal   de informática e simplesmente se satisfaz em acertar na distribuição  percentual  das  AIH. Com as armas de que  dispõe,  fácil  seria,  embora trabalhoso, plotar no  País, no Estado, no Município e  até no hospital, mensalmente e antes de cada pagamento, os   aludidos desvios.

Mais   uma  vez  ficam  expostas  as   falhas  gerenciais  do SIH. Suas causas são  mais difíceis de  determinar. Cremos  serem  essas  uma mistura de culpa e dolo.  Aquela,  por  incompetência  ou  omissão  e esta,  pela  hodiernamente  chamada  "ocupação de espaços  políticos".

 

                    Em   nosso  julgamento,  não  basta   que   o  Ministério da Saúde conte e distribua  as AIH para os estados,  em obediência aos critérios vigentes. É preciso e indispensável  que  sejam  praticados  os  mecanismos de  controle  e  avaliação  nos  caminhos que levam as AIH  dos estados para os municípios e destes para os hospitais. Da mesma forma que se aumenta um ponto  quando  se  relata  um  conto, em cada uma dessas  etapas  são  possíveis  múltiplos  descaminhos, sempre lesivos ao interesse comum. Devemos envidar esforços para que a  sabedoria do legislador ao  criar  o Sistema Nacional de Auditoria Médica não seja distorcida e   muito menos  anulada.  Quem  paga  não pode e  não  deve  auditar suas  próprias contas.  Quem proporciona ganhos a outrem também não pode e  não  deve  auditar suas próprias  condutas. Em  nosso  juízo,  o Sistema Nacional de Auditoria Médica deveria ter o seu lugar  fora dos ambientes do Ministério da Saúde e das Secretarias  Estaduais  e   Municipais  de   Saúde.  Em  assim   procedendo,   estar-se-ia emoldurando a Auditoria Médica com a  independência necessária  ao seu  bom  desempenho. O contrário, equivale a  ajustar  o  último  prego  no  esquife onde já repousa a Auditoria  Médica  em  nosso  meio.

 

     DA  POPULAÇÃO  HOSPITALAR  (Anexo II  e  Anexo III)

 

                    O  Anexo II  representa um  censo  hospitalar  diário.  Retrata, dia a dia, todos os  dias nos quais o conteúdo  foi maior  que  o continente. Mostra, de fato e matematicamente,  as  datas  nas  quais  o hospital hospedou mais pacientes  do  que  o  número  total de leitos   oficialmente cadastrados no  SIH.  Estão devidamente  elencados por hospital, todos os dias em   que  houve extrapolação  de  pacientes, bem como o quantitativo de  dias  do  período  com   excesso de internos. Expõe, outrossim, o  total  de doentes sem leito, no lapso referido.

 

             Complementando  o  Anexo II ,  apresentamos  o  Anexo  III  que  contém,  por  hospital, a  relação  das  AIH  que correspondem    aos   pacientes   internados  nos    dias     das impertinências, listadas no Anexo II .

                    Comentar  exemplos pinçados seria por  demais  enfadonho.  Julgamos  mais   proveitoso  remeter  o  analista   ao conteúdo   deste   anexo.  Poderá,  assim,  verificar   que    em determinados   estabelecimentos,  na  maior  parte   do   período  analisado, houve um  superpovoamento de enfermos que em  momento algum foi questionado. O Ministério da  Saúde, conforme  apuração do  DATASUS,  através  do  SIH que  registrou  as  AIH  cobradas,  simplesmente  pagou.  Tudo se passou como se em um hotel  de  200 leitos fossem faturados 300 ou mais pernoites.

 

                    Aplausos  para as entidades  nosocomiais  que  otimizaram os seus resultados e  apupos ao setor público,  patrono dessa incoerência. Pêsames, mais uma vez, ao contribuinte.

 

                    DAS  INCOERÊNCIAS  (Anexos IVV  e  VI)

 

 Até  então comentamos a distribuição das  AIH  no  Estado do Rio de Janeiro.  Agora, vamos nos ater à análise  de conteúdo  especificado  nos Anexos IVV  e  VI que   demonstram  e, mais  do  que isso, comprovam internações pagas  com  permanência  hospitalar  de  respectivamente  zero,  um  e  dois  dias.  Essas  internações  se  referem a  procedimentos  médicos  absolutamente incompatíveis  com  o  tempo  de  hospitalização   assinalado  nas respectivas  AIH.  Na  produção dos referidos  anexos  tivemos  o  cuidado  de identificar o palco das ocorrências - o hospital,  os números das respectivas AIH e as condições  de alta dos pacientes. Dessas,  foram  selecionadas  somente  as  seguintes   condições: curado,    melhorado,  inalterado e para  tratamento  ambulatorial.  Propositalmente foram excluídas  deste estudo as saídas  motivadas por  qualquer outra condição. Adotamos essa conduta para   que  os casos  estudados  não tivessem o seu  quantitativo  acrescido,  e  portanto distorcido, por  fatores tais como: óbito, transferência, indisciplina,  evasão, etc. Fica claro que todas  as   internações referidas  nestes anexos teriam sido devidamente  concluídas,  no  que  tange aos  cuidados médico-hospitalares inerentes a  cada  um desses procedimentos.

 

                    Como é possível que com menos de 24 horas  de  internação  tenham  tido  alta,   nas  condições  já   enunciadas, pacientes diagnosticados como:

 

                       Grande queimado

                       Colectomia parcial

                       Artrodese da coluna por via anterior

                       Kwashiorkor (pediatria)

                       Marasmo (pediatria)

                       Cirurgia coronariana com extracorpórea

                       Prematuridade

                       Tratamento cirúrgico de hematoma sub-dural

                       Septicemias (pediatria e clínica médica)

                       Mieloma múltiplo ...

e  muitos  outros que seria enfadonho enumerar e  difícil,  senão  impossível,  acreditar. Todos  esses acometimentos são  geralmente de evolução tormentosa e permanência nosocomial longa,  portanto de custo elevado. O mieloma múltiplo, doença até hoje  incurável e de grande  malignidade, apresenta, nos documentos citados, casos de "alta  curado"  com  menos  de 24   horas  de  permanência.  É  um absurdo!!!   

 

                    O rol das enfermidades acima enunciadas  será  encontrado, também, nos Anexos V  e  VI, com respectivamente hum  e dois dias de internação.

 

                       Fato   é   que  esses   absurdos   podem   ser detectados.  Podem ser glosados. Não devem existir, entretanto  o  SIH   pagou  e,  pior, continua pagando por eles,  com  as  mesmas características na apresentação das contas.

 

                    DO  IMPOSSÍVEL  (Anexos VIIVIII  e  IX)

Se os fatos até agora relatados  surpreendem,  os  feitos  que  doravante  iremos   comentar  são  de  ocorrência impossível.

 

                    Nas   crenças  religiosas  são  descritas   a  imortalidade,  a  vida eterna, a  ressurreição, etc...  Entre  nós humanos,  e  portanto mortais, a ocorrência  destes fenômenos   é peremptoriamente  impossível.  O  SIH,  entretanto,  os   aceita,  registra  e paga, como  acontece por exemplo com a  multiplicidade de óbitos para um mesmo indivíduo.

 

                    O conteúdo do Anexo VII atesta, por si só,  a  total  orfandade  a que chegou o  controle do SIH.  É  um  libelo. Expõe   um   conteúdo  descabido,   inusitado  e    absolutamente incompatível  com  a realidade - a morte repetida para  um  mesmo  indivíduo.   Sem  dúvida, como pode ser visto,  as  variáveis  são inúmeras:   local,   diagnóstico, causa,    data   e   necrópsia. Analisando-as  afloram  combinações  surrealistas  das  quais,  a  título de ilustração, selecionamos algumas:

 

                           F.R.B.M.S.,    AIH    1083655463     e  1263086616, recém-nato prematuro,  óbito nas duas AIH sendo que na primeira sem necrópsia e na segunda com necrópsia, ambas  na mesma data. Episódio assinalado no Hospital Universitário Antonio Pedro  (UFF), CGC 28523215/0003-78, Niterói.

 

                          F.D.V.G.D.C.,    AIH    1083844784    e  1083848799,  recém-nato prematuro,  óbito sem necrópsia  nas  duas AIH,   com  as  mesmas  datas.  Apresenta nos  dois    documentos exatamente os mesmos dados, tal qual um trabalho reprográfico. As  cobranças   beneficiaram o Instituto Municipal da Mulher  Fernando Magalhães, CGC 29468055/0006-17 da Secretaria  Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

 

                           F.C.R.,  AIH 1066864029 e  1263141352,  óbito  sem  necrópsia nas duas AIH,  ambas declarando a  morte  na mesma data. Na primeira conta hospitalar a cirurgia relatada   foi reconstrução  do lóbulo da orelha, enquanto a outra se  refere  à  toracotomia  com  drenagem  fechada. A ilação  entre  estas  duas  cirurgias  é  muito  difícil. Afinal,  são  áreas   anatômica   e fisiologicamente  distintas  - orelha e tórax. O  cenário  foi  a  Santa Casa de  Misericórdia de Barra Mansa, CGC  28683712/0001-71. Na segunda AIH mencionada, a  especificação das condições do óbito vão de encontro às datas da internação e da morte. É  impossível a ocorrência de "óbito s/necrópsia após 48 horas de internação"  em paciente  cuja  entrada se deu em 01/02/94 e a saída em  02/02/94. Em resumo, o SIH aceitou pagar por dois  absurdos: duplicidade  de óbito para o mesmo doente na mesma data e 24 horas valendo " mais  de 48".

 

                           L.D.C.,  AIH 1084205419 e  1084217563,  óbito  sem  necrópsia  nas duas  AIH. Na primeira  foi  anotado  o diagnóstico de tumores malignos do aparelho respiratório,  tendo o óbito  ocorrido em 11/08/94 na ASVP - Casa  Providência  Hospital  Alzira  Vargas,  CGC 33570052/0029-53, em Petrópolis. Nessa  mesma data a paciente foi internada no  Sanatório Oswaldo Cruz Ltda, CGC 31141856/0001-00,  também  em Petrópolis, com  o   diagnóstico  de tumores malignos do pulmão. Óbito registrado três dias depois, em  14/08/94.  Não bastasse o insólito da internação segunda, na mesma data  do seu "primeiro óbito", é digno de nota o fato  de um  diagnóstico  estar contido  no  outro,  pois sabidamente o  pulmão  é  o  principal  componente do aparelho respiratório.

 

                           M.D.L.F., AIH 1262965077 e 1083655023.  Na  primeira AIH, emitida pela  Casa de Saúde Santa Lúcia SA,  CGC 31684384/0001-32, em São Gonçalo, o óbito se deu em  04/03/94, não havendo necrópsia. Na mesma data nova internação, desta feita  no  Hospital  Universitário Antonio Pedro (UFF), CGC 28523215/0003-78, em Niterói. Óbito registrado três  dias depois, em 07/03/94, tendo sido efetuada necrópsia. Nas duas internações o diagnóstico foi  o mesmo - Acidente Vascular Cerebral.

Na  identificação das ocorrências,  o  número  das respectivas AIH está publicado  na sua íntegra, enquanto  para o  nome  dos  mortos  são  usadas  somente iniciais.   Destarte,  enquadra-se o relatório nos parâmetros da Ética Médica.

 

                    Força é salientar que todos os casos da mesma  natureza  abrangidos  ou  não pelo  Anexo VII  geraram  uma  dupla cobrança  e,  com  muito  mais  gravidade, uma  duplicidade    de pagamentos. 

 

                    O Anexo VIII de incongruências  aceitas  pelo SIH no que se refere ao  chamado caráter da internação. Esse, qualifica a necessidade da assistência nosocomial em  dois grandes grupos:   eletivo  e  urgência/emergência.  Aquele,  alcança   as  internações   para    as   quais  é  possível   prever   a   data: amigdalectomia, estapedectomia, nefrolitotripsia, etc.  Esta, como traduz  a sua nominação, inclui eventos que subitamente  criam  a  necessidade   do   ambiente  hospitalar:  atropelamento,   aborto, afogamento, etc.

 

                    Como  se vê, esta simples  identificação,  se  bem  explorada  sob  o ponto de  vista   da  informática,  poderia transformar-se  em um fator de crítica impedindo assim  cobranças  indevidas e pagamentos absurdos. O não aproveitamento deste  dado  permite que sejam  remunerados procedimentos que de maneira alguma podem ser classificados de eletivos.

 

                    Excluídas   as  tentativas  de   suicídio   e  homicídio,  seria possível marcar data  para a ocorrência de um grande queimado? Seria   possível  prever  um acidente  por  picada   de   animal  peçonhento? Seria possível prever um acidente por arma de fogo ?

 

                    A  resposta  aos quesitos enunciados  é  não,  evidentemente. Para o SIH, porém, a  resposta é sim, vez que  além de  aceitar  estas  hipóteses  promove  sem "pestanejar"  a  sua  indevida   remuneração. Este é o assunto de que trata o Anexo VIII   identificando,  ademais, o  número da AIH, as iniciais do nome  do paciente,  as respectivas datas de entrada e saída, o  código e  o nome  do  procedimento realizado, tudo devidamente  arrolado  por  empresa  beneficiada e cópia fiel do material entregue por ocasião da cobrança.

 

                    O Anexo IX  demonstra a mais bizarra de  todas  as   distorções  já  evidenciadas   neste  relatório.   Alude   às reinternações   de  um  mesmo  paciente  com óbito   previamente  declarado,  em um mesmo hospital ou em hospitais  diferentes.  Os  diagnósticos  na maioria  das vezes se modificam,  embora  possam, também, permanecer imutáveis.

 

                    À guisa de ilustração, destacamos  alguns  exemplos que consideramos significativos:

 

                           C.M.D.,  AIH 1084014206, 1355946780  e  1372577019.  A  primeira AIH foi  paga ao  Hospital  Universitário Gaffrée  e  Guinle  (UNIRIO), CGC 34023077/0001-07,  no   Rio  de Janeiro, com o diagnóstico de "tireoidite". Entrada em 21/06/94 e  óbito  em 16/07/94.  Nessa mesma data foi registrada a  internação da  paciente  no Hospital Universitário   Clementino  Fraga  Filho (FUNDÃO),  CGC 42429480/0002-31, no Rio de Janeiro, sob o   rótulo diagnóstico de "redução cirúrgica de fratura transtrocanteriana".  Alta em 11/08/94 para  tratamento ambulatorial. Cinco dias depois, em  16/08/94  a  doente é readmitida  no  Hospital   Universitário Gaffré  e Guinle, sob o diagnóstico de  "disfunção  tireoidiana",  recebendo alta melhorada em 01/09/94.

 

Trata-se, portanto, de uma paciente que  num  período  de 67 dias  apresentou três  internações,  duas  das quais no mesmo hospital, tendo a segunda se dado na mesma data do óbito declarado na primeira AIH. Questionamos então:

 

-  teria a doente realmente falecido na primeira internação? 

-  como justificar o  reaparecimento da mesma paciente,  no  mesmo dia do seu óbito, ocorrido em um hospital  universitário, em outro hospital da mesma natureza?

 

                    Com  todo  o  respeito  que  nos  merecem  as  referidas    entidades  de  ensino   médico,  não  acreditamos   em ressurreição no mundo material em que vivemos e muito  menos,  por enquanto, em transporte por desintegração molecular.

 

                           E.F.M.D.C.,    AIH    1379925734     e  1392300987. A primeira AIH  corresponde à internação na Carlos  R. da  Silva  Casa de Saúde Santa Mônica, CGC   30106538/0001-46,  em Niterói. Entrada em 07/10/94 com o diagnóstico de "atendimento de  paciente   fora  de  possibilidade  terapêutica".  O  óbito   foi  assinalado  24 dias depois, em  31/10/94, codificado no  documento de  cobrança  hospitalar como "óbito com necrópsia  antes   de  48 horas  para  estado não agônico". Em 08/11/94, oito dias  após  a declaração  do óbito,  nova internação no mesmo  nosocômio,  dessa feita  com  o  diagnóstico  de "amputação  da   coxa".  Alta  para tratamento ambulatorial em 10/11/94.

 

                    Neste   caso  podem  ser  evidenciadas   duas  importantes irregularidades:

 

-  o  hospital reinternou uma paciente declarada  como  morta  na  primeira AIH.

-  ao  codificar o óbito fê-lo erroneamente, pois  que  a  doente  estava  internada há 24 dias e não por um período inferior  a  48  horas. Pergunta-se:

- se de fato ocorreu a necrópsia declarada na primeira fatura e  ainda,  de  acordo com o  registro, essa se deu com  menos  de  48 horas  de internação, por que o SIH não rejeitou esse   pagamento, pela  incongruência construída com um tempo de internação  de  24  dias?

-  como  foi possível que os computadores  tivessem  permitido  o  pagamento  de uma  amputação da coxa de um morto? Será que  o  SIH pagou por um detalhe da necrópsia anterior, uma nova AIH?

 

                    De  tudo que este exemplo demonstra,  a  mais  importante  ilação é o surgimento  de uma total falta de  crítica, sob  o ponto de vista da informática. Critérios múltiplos  podem  ser usados para descartar simples homônimos: data de  nascimento,  sexo, residência, município, etc. Assim o fizemos.

 

                           E.P.M.,  AIH  1373002829,  1373002830,  1373002818,   1373002840,   1373002807  e  1380127331.   As   seis internações    ocorreram   na   Fundação  Ary    Frauzino,    CGC 40226946/0001-95,  no Rio de Janeiro, num interregno que  vai  de  03/07  a   28/10/94. Os diagnósticos são  absolutamente  coerentes entre  si.  A  primeira AIH refere   admissão  em  03/07/94,  com necrópsia  em  08/07/94.  No conjunto das  AIH,  destacando-se  o  dígito verificador, ressalta o caráter serial das mesmas. 

 

                    Na  realidade,  os  fatos  se  desenrolam  em  "flashback"    visto  que a saga desse  paciente começa  com  a  sua morte.  Após  o seu alegado passamento é produzida uma  série   de idas e vindas ao hospital, onde se interna por cinco vezes. Neste  caso  específico  lamentem- se  as  ocorrências  em  dobro:   pelo inusitado e por tratar-se de uma entidade oficial de   assistência médica.

 

                           J.R.D.S., AIH 1373193547 e 1373193536.  As  duas internações ocorreram no  Hospital Estadual Pedro II, CGC 42498717/0005-89, no Rio  de  Janeiro. A primeira em 12/09/94, com  o  diagnóstico   de "crise asmática". Óbito registrado em 14/09/94. No dia seguinte o  hospital  emitiu  outra   AIH  em nome  do  mesmo  doente,  com  o diagnóstico  de "entero-infecção em lactente". Alta  melhorado  em 23/09/94.

 

Chamamos atenção para os números das AIH que,  separando-se o último dígito (controle), mostram-se sequenciais.

 

                           R.R.,  AIH 1392179789 e 1380320040.  A  primeira  AIH  corresponde à  internação no Hospital  de  Clínicas Infantil Ltda, CGC 30749410/0002-81, em Nova Iguaçu.  Admissão  em 21/11/94  com  o  diagnóstico de "pneumopatias  agudas"  e  óbito  consignado  em 30/11/94. A segunda fatura foi emitida em  28/11/94 pelo  SEMIU Serviço  Médico  Infantil   Leopoldinense  Ltda,  CGC 34165969/0001-34,  no  Rio  de  Janeiro,  com  o  diagnóstico  de  "marasmo" (pediatria). Alta melhorado em 30/11/94. 

 

                    Trata-se, pois, de uma criança que num período  de nove dias sofreu duas  internações em hospitais diferentes,  no mesmo município, estando o período da segunda  internação  contido na  primeira.  Mais grave ainda, os motivos de suas  saídas   nas  duas AIH: a primeira por óbito e a derradeira, melhorado.

 

 

                    Lamentavelmente,  na  maioria dos  casos  dos  pacientes "redivivos" estão  envolvidos estabelecimentos  públicos e ou de ensino médico. Acresça-se a esta associação o   Ministério da  Saúde pela sua leniência na gestão do SIH. O conjunto, ao  ser  apreciado, debuxa  uma imagem de um indivíduo que de forma  rápida, constante  e  à sorrelfa, no escuro, tira do   bolso  esquerdo  e coloca  no direito. Se pelo menos os valores em circulação  -  de  bolso a  bolso - permanecessem imutáveis, nada se perderia. Porém, a cada viagem interbolsos é  cobrado um "pedágio" que recai sempre no bolso do contribuinte.

 

 

 

                    DA  POLITOMIA

 

 

                    Um    capítulo    em    separado,     deveras  representativo   da má fé com que  operam algumas empresas  médicas ligadas  ao  SIH,  diz  respeito  à  prática  da politomia    das internações. Tal comportamento se traduz em diversas  modalidades  operacionais: sequencial, imbricada e terapêutica.

 

                     Por  sequencial entenda-se a  ocorrência  de  múltiplas internações para um  mesmo paciente, no mesmo  hospital, registradas de forma que a data da internação em uma  das AIH seja imediatamente seguinte à data da alta em outra.

 

                    Como exemplos específicos citamos:

 

                           E.F., internada pela AIH 1392561710 em  23/11/94,  recebeu alta para  tratamento ambulatorial em 30/11/94. Foi  cobrada  e  paga uma  "colectomia parcial"   (33706069).  Em 01/12/94  nova  internação  foi efetivada com a  emissão  da  AIH  1404979268, para uma "laparotomia exploradora" (33016119). A alta  ocorreu em 06/12/94,  com o mesmo destino da anterior.

 

Pela   cronologia  dos  fatos,   a   segunda  cirurgia se não resultante de uma  complicação da primeira,  perde a  pertinência  uma  vez que não se chega à  uma colectomia   sem praticar  uma  laparotomia.  Lado outro, se  tivesse  havido  uma  complicação  no   decorrer da internação primeira, também  não  se justificaria  a  cobrança de uma nova  internação, pois  todos  os atos  e  fatos médicos se enquadrariam, por norma,  em  um  único  documento.  A segunda AIH, emitida em dia imediatamente  seguinte  ao  da alta da primeira,  qualquer que seja o ângulo  da  questão, foi indevidamente cobrada e injustamente paga. Os  autores  desses feitos  foram  respectivamente  a  Fundação  Ary  Frauzino,   CGC 40226946/0001-95, no município do Rio de Janeiro, que cobrou e  o  Ministério da Saúde que,  sem controlar, pagou.

 

                           D.D.S., internada pelas AIH 1372968608  e 1372968619, com o procedimento  realizado de "outras doenças  do sangue  e órgãos hematopoiéticos" (79500102). A primeira   entrada ocorreu  em  15/08/94,   com  a  saída  em  22/09/94.  A  segunda  internação  cobriu  o  período de 23/09/94 a  28/09/94.  As  altas foram respectivamente "administrativa" e  "melhorado".

 

                     Que  motivação teria fracionado no  tempo  a  mesma  enfermidade?  O que  justificaria uma alta,  escritural  em 22/09  e  uma  reinternação em 23/09/94? Para estes   quesitos  a resposta é una: dobrar o faturamento. A montagem documental deixa  em  relevo a  certeza de que as contas apresentadas  não  sofrerão qualquer  tipo  de  auditoria. Tal  assertiva   decorre  de   uma observação muito simples: sabemos que a entidade universitária em  tela   consome cerca de 1500 AIH/mês e, portanto,  considerando  o interregno   das duas   internações,  não  é  plausível  que   os documentos  de registro (AIH) sejam imediatamente  sequenciais.  A responsabilidade  cabe  ao Hospital Universitário  Antonio  Pedro (UFF), CGC  28523215/0003-78, em Niterói, com a mesma parceria  do exemplo anterior.

 

                    A   internação  imbricada  é  fruto  de   uma  superposição  temporal  em  que os   períodos  considerados  estão contidos  um no outro, parcial ou totalmente. Considera-se  este  rótulo   aplicável   somente   para  as  AIH   pagas   na   mesma  especialidade. Mais uma vez os  exemplos são reveladores da  total falta de zelo no controle dos dispêndios do erário:

 

                           I.T.P.,    internada    no    Hospital  Universitário Pedro Ernesto (HUPE), CGC  33540014/0017-14, no  Rio de  Janeiro, pelas AIH 1308820293 e 1308820194. Na  primeira,  as  datas assinaladas foram 30/09/94 e 02/10/94, respectivamente para  entrada e saída. Na outra,  01/10/94 e 02/10/94. Na internação  de setembro  o diagnóstico (procedimento realizado) foi de   "tumores malignos  do  cólon"  (85500160) e na  de  outubro,  de  "tumores  malignos do reto" (85500178).

 

                    No  que toca aos procedimentos  cobrados,  os  segmentos  intestinais  comprometidos pelos tumores, respeitada  a mão de direção fisiológica, se continuam. No que  diz respeito  às datas, o período da internação inicial é conteúdo da  derradeira.  Por direito,  toda essa passagem pelo hospital deveria resultar em uma só cobrança.

 

                           A.B.,    internada    para    cirurgia  intestinal  no Hospital Universitário  Antonio Pedro  (HUAP),  CGC 28523215/0003-78,  em  Niterói, pela AIH 1006680037,  aparece   em mais quatro internações:

 

 

AIH

Procedimento realizado

Entrada

Saída

1006680037

Enterotomia (33012067)

03/04/93

08/04/93

1006680048

Ressutura parede abdom.(33022119)

08/04/93

11/04/93

1006680059

Enteroanastomose (33008060)

11/04/93

15/04/93

1006680796

Laparotomia exploradora (33016119)

15/04/93

19/04/93

1006680060

Laparotomia exploradora (33016119)

19/04/93

12/05/93

 

 

                    Admitindo  que  o  calvário  dessa   paciente  esteja  contido na sequência acima,  podemos afirmar que  tanto  a cirurgia inicial como as demais, todas resultantes, deveriam  ter  sido  cobradas  em  uma única AIH, no caso a  primeira.  São,  na  realidade,  episódios   consequentes  ou  complicantes.  Além   da ruptura normativa do SIH, os feitos elencados  violentam,  também, os  conceitos temporais. A doente, repetidamente, marca  presença  dupla em AIH diferentes, na mesma data.

 

A  hospitalização  terapêutica plural  para  o  mesmo enfermo é, sempre que  efetivada pelo diagnóstico  principal (procedimento realizado), além de onerosa, elemento   extremamente nocivo  ao perfil nosológico da Nação. Sua multiplicidade,  assim  criada,   contribui para falsear as estatísticas de  morbidade  em nosso País.

 

                    Apesar    dos   exemplos   possíveis    serem  numericamente significativos,  elegemos o caso abaixo:

 

                           D.R.A.,  internada  na  Fundação   Ary  Frauzino,  CGC  40226946/0001-95,  no Rio de  Janeiro,  pelas  AIH 1392561698  e 1404979213. Em 26/10/94 entrada da primeira   AIH  , tendo sido o procedimento realizado "tumores pediátricos c/uso de  antibioticoterapia  e  ou antifúngicos" (79700705). A  alta,  para tratamento ambulatorial, se deu em 09/11/94. No  dia imediatamente posterior   (10/11/94),  ocorreu  a  segunda  internação  com   o  diagnóstico  (procedimento realizado) de "tumores  c/administração de drogas  intra-tecal" (79700829).  Essa nova  alta  ocorreu  em 05/12/94, também para tratamento ambulatorial.

                    É  evidente, até pelos rótulos  diagnósticos,  que  essa  menor foi internada para  quimioterapia. Ora,  por  que duas  AIH para duas administrações terapêuticas que, se   cobradas em  um único documento seriam, ambas,  remuneradas?  Simplesmente  porque o  prestador de serviços queria duplicar o faturamento,  no que se refere aos demais ítens normalmente remunerados na AIH.

 

                    É  deveras  contristador  e   lamentavelmente  grave   que,  como   visto,  entidades   hospitalares  oficiais   e universitárias  tenham  participação  tão  relevante nos  feitos  enunciados.   É,   mais  do  que  isto,   preocupante   o   poder  multiplicador  que as escolas  médicas podem exercer.  Corremos  o risco  de  formar  verdadeiras  legiões  de profissionais    cuja competência  para o fim proposto pode ser discutível, mas para  a  perpetração de desvios e  até ilícitos, em momento algum  causarão polêmica!

 

                    DOS  CASOS  ESPECIAIS

 

                    A cirurgia múltipla e o politraumatizado  são  rótulos  diagnósticos  que  infelizmente se prestam muito  bem  às manobras de alguns prestadores de serviços. Zerados na  tabela  de procedimentos  do  SIH/SUS funcionam como um invólucro  que  pode  abrigar no  máximo cinco procedimentos (diagnósticos). Estes, sim, responsáveis   diretos pelos   indicadores   hospitalares,   pela nominação da nosologia e, sobretudo, pelos custos envolvidos.   Os dois procedimentos em foco, é força ressaltar, estão situados  no  rol  dos códigos  cirúrgicos. Como não é possível a  previsão  de quantas   cirurgias   serão   necessárias   e    tampouco    quais consequências   decorrerão  dessas  intervenções,  a  tabela   de procedimentos não estipula tempo de permanência e valores a serem  pagos (zerados).

                    Por  ocasião do aferimento de uma AIH que  se  apresente  com  um  desses   códigos  no  procedimento   realizado (cirurgia  múltipla  = 31000002; politraumatizado =   39000001)  o computador  dirige  sua  leitura para  o  campo  médico  auditor,  captando  os  códigos aí registrados, esses sim, com  previsão  de tempo   de permanência  e  valores   constantes  da   tabela   de procedimentos do SIH. Vê-se, pois, que para dissecar o custo e  a  pertinência  de  uma AIH dessas categorias, não basta  auditar  o código  do procedimento  realizado. É indispensável revolver  suas entranhas,    que    retratarão    os    procedimentos     médicos verdadeiramente  envolvidos e, por consequência, o cabimento  ou  não do tempo de  internação, bem como dos valores pleiteados. Ora, quando  se  analisa um grupo de AIH de  cirurgia  múltipla  ou  de politraumatizado   obtém-se,  com   facilidade,   a   média   de  permanência,  o  valor  médio  pago  pela  internação,   etc.  Se,  entretanto,  não  praticarmos a  invasão  do  rótulo  conheceremos apenas o tempo de permanência e o valor auferido pelo  conjunto ou individualmente. Ignoraremos, porém, em troca do que estão  sendo  cobrados  ou   foram  pagos  esses  valores.  Daí  a   necessidade indispensável  que  o  SIH considere, para  fins  de  custo  e  de estatística em geral, não apenas o politraumatizado ou a cirurgia  múltipla   mas,  sobretudo, os acontecimentos  anotados no  campo "médico auditor" (procedimentos  autorizados).

 

Os  exemplos passíveis de citação, se  contam  em  números abastados. Para não  praticarmos repetições  maçantes, citaremos apenas duas ocorrências para cada um dos   procedimentos citados:

 

                           N.D.S.S.,  atendimento  registrado  no  Hospital  Municipal Jesus, CGC  29468055/0008-89, no município  do Rio  de  Janeiro;  AIH  1045807500, constando  no    procedimento realizado   o  código  de  "cirurgia  múltipla"  (31000002).   Na  realidade, os  procedimentos autorizados, cobrados no campo "médico auditor", foram  "laparotomia exploradora"    (33016119)    e "apendicectomia" (33005060). Tudo foi reivindicado pelo  nosocômio como  se  trilhar o caminho para chegar ao objetivo  fossem  duas ações   independentes. No entanto, não é possível a realização  da segunda  cirurgia sem a invasão  abdominal, por menor que  seja  a incisão. O SIH pagou o   trilhar  bem como ochegar.

 

                           M.D.G.G.,  atendimento  registrado  no  Hospital  Universitário  Antonio   Pedro  -  Universidade  Federal Fluminense,  CGC  28523215/0003-78, em Niterói;  AIH   1055763896, constando  no  procedimento  realizado  o  código  de   "cirurgia  múltipla"  (31000002). Na realidade, os procedimentos autorizados, cobrados   no   campo "médico auditor",   foram   "hepatorrafia" (33012083),  "drenagem  de  abcesso  sub-frênico"   (33002118)   e "colorrafia  por  via abdominal" (33034060).  As  três  cirurgias  alegadas são  em uma área comum - cavidade abdominal. Por direito, a remuneração pleiteada só deveria ter  ocorrido por uma delas,  a mais   cara.   O  SIH,  embora  de   forma   decrescente,  pagou  integralmente pelo primeiro e 75% pelos outros dois procedimentos  cobrados.

                           D.A.D.S.,  atendimento  registrado  na  Associação Congregação Santa  Catarina Hospital Santa Teresa,  CGC 60922168/0004-29,  no  município de Petrópolis;  AIH   1056531278, constando    no    procedimento    realizado    o    código    de  "politraumatizado"   (39000001).  Na realidade,  os  procedimentos autorizados, cobrados no campo "médico auditor",  foram  "tratamento conservador   do   traumatismo   crânio-encefálico"   (40001008),  "traumatismo   crânio-encefálico"   (91300061)   e    "tomografia computadorizada  I  (crânio  e coluna)" (97013013).  De  início  é estranho  que  tenham sido cobradas duas patologias,  e   portanto dois  atendimentos,  referentes  ao  binômio  crânio-encéfalo.  O  primeiro,  listado  em  Neurocirurgia e o  segundo  em  tratamento clínico. A assistência médica conservadora está, de  fato, contida nos  dois  títulos.  Entretanto, nos registros  do  campo  "médico auditor"  foram   cobrados e, pior, pagos dois tratamentos  para  o mesmo continente e seu respectivo conteúdo.

 

                           A.A.J., atendimento registrado no  SMS  Nova  Friburgo Hospital Santo  Antonio, CGC  28606630/0001-23,  em Nova   Friburgo;  AIH  1056345400, constando   no    procedimento realizado  o código "politraumatizado" (39000001). Na  realidade,  os   procedimentos autorizados, cobrados no campo "médico auditor", foram "craniotomia para  tratamento cirúrgico de abcesso cerebral" (40009017),   "tratamento  conservador  do   traumatismo   crânio- encefálico"   (40001008)  e  "angiografia  cerebral  unilateral"  (97001007).  A justificativa para a cobrança dos  dois  primeiros  ítens,  em conjunto, é  impossível. Quanto a ordem em que os  dois episódios  mórbidos  teriam  ocorrido, a lógica  só   admite  uma sequência:  o  primeiro como consequência do segundo.  Admitir  o  contrário   seria imaginar que depois de operado, o paciente  caiu do  leito ou foi agredido. O justo e correto teria sido cobrar  e  pagar  pelo primeiro ítem, que em sua rotina assistencial  contém  os insumos do segundo. O terceiro ítem da cobrança é pertinente.

 

                    Ainda no âmbito dos procedimentos  especiais,  que  como  tal  sempre  geram  valores,  deve  ser  contemplada  a possibilidade  da  ocorrência  de  desvios. Esses   procedimentos autorizados  são anotados no campo "médico auditor"  e  representam  insumos    terapêuticos,   tais  quais:  fatores   de   coagulação sanguínea,  imunoglobulinas, albumina   humana,  plasma   humano, sangue e medicamentos especiais em geral.

 

                    Nesses  casos  não  existe  nenhum  tipo   de  crítica   e  o  SIH  paga,  por   exemplo,  até  495  frascos   de fibrinogênio  humano  em  uma única AIH. Paga, também,  até   495 concentrados  de plaquetas ou 495 aplicações  de  crioprecipitado  anti-hemofílico  em um  único documento. Enfim, não existe  nenhum tipo  de análise que permita confirmar a  veracidade do alegado  e cobrado. Mais: não há, por parte do órgão pagador uma política de  apuração que estude a viabilidade da existência de condições para  produzir os materiais pagos.

 

Para  consubstanciar o enunciado,  escolhemos  duas  AIH  pagas  ao Hospital da  Casa do Hemofílico  do  RJ,  CGC 29995925/0002-82:

 

                    AIH   1084539984,   cujo   diagnóstico    foi  codificado   como   79500064   (outras    púrpuras   ou   afecções hemorrágicas).   Nesse  documento  foram cobrados   fatores   de  coagulação,  o  que  elevou o total da  fatura  para  R$58.649,88  (cinquenta  e  oito  mil,  seiscentos e quarenta  e  nove  reais  e oitenta e oito centavos). Normalmente, o ressarcimento   previsto, nesse  caso, pela tabela do SIH seria de R$86,43 (oitenta e  seis  reais  e  quarenta  e   três  centavos).  A  alegação  de  uso  de medicamentos  especiais  foi  a  responsável   pelo    incremento verificado.

 

                    AIH   1325465933,  cujo   diagnóstico   foi  codificado como 91500141  (complicação de procedimentos cirúrgicos ou  médicos).  Nessa internação teriam sido   requeridos  fatores sanguíneos,  o que ascendeu o valor pago à cifra  de  R$58.633,79  (cinquenta e oito mil, seiscentos e trinta e três reais e setenta  e  nove centavos). Na remuneração prevista pela tabela do  SIH  o valor  seria  de  R$70,34  (setenta  reais  e  trinta  e    quatro centavos).  A  alegação  do  uso  de  terapias  especiais  foi  a  responsável pela elevação dos custos.

 

                    Casos  como estes se repetem no SIH  sem  que  haja  qualquer questionamento,  seja por parte do  computador,  do auditor  ou  de  um supervisor. Teria havido indicação  para   um quantitativo  tão  elevado  de  fatores  de  coagulação?  Haveria  matéria  prima  suficiente   para a sua produção? Admitindo  o  sim para   os  dois  quesitos;  teria realmente  sido   efetivada   a terapêutica nas quantidades cobradas e pagas?

 

                    Pelo exposto, depreende-se que o SIH está mais  para um simples pagador do que  zelador. Há indícios marcantes  de que  os  feitos  alegados devem ser pagos, de  preferência   sem questionamentos.

 

 

                    Mais  uma  vez, fica patente  que  os  piores  auditores  são aqueles subordinados  às entidades que gastam,  que cobram  ou que pagam. Uma auditoria séria, eficiente e eficaz  só  pode ser praticada fora do âmbito dos que gastam, dos que  cobram  e  dos  que pagam. Melhor  dizendo, as  Secretarias  Municipais  e Estaduais  de Saúde aliadas ao Ministério da Saúde,  bem  como  os prestadores de serviços, não podem, e mais do que isso, não devem  lidar com a  auditoria médica oficial, a não ser pela leitura de relatórios que, pelo visto, agradará a poucos.

 

                    Sempre  que o exercício da  Auditoria  Médica  não   se  processar  em  ambiente   de   absoluta   independência, persistirão, solidamente embasadas, dúvidas quanto a validade  dos seus resultados.

 

                    Por derradeiro, incluímos uma nova observação  que,  obedecendo  à máxima de  que os extremos  se  tocam,  também contempla  a distribuição de AIH     (Anexo X). Traduz   com  absoluta fidelidade a amaurose operacional da Secretaria  Estadual  de Saúde do  Rio de Janeiro, nesse sentido. Não se evidencia qualquer controle na manutenção  da proporcionalidade  preconizada para as  internações nos municípios. Saliente-se que os administradores atuais -1995- integram  uma  corrente política diferente  da gestão  anterior.  Entretanto,  pelo que se  pode comprovar e projetar, os  erros  do passado  contaminam  integralmente as ações  do   presente.  Assim sendo,  alguns municípios já internaram no primeiro  quadrimestre  de  1995  um percentual da sua respectiva população,  superior  ao preconizado pelo Ministério da Saúde para todo ano:

 

MUNICÍPIO

    % POP. INTERNADA

Bom Jesus do Itabapoana

17,492

Laje do Muriaé

12,845

Natividade

12,175

Itaperuna

11,637

Vassouras

11,426

Carmo

11,226

Santo Antonio de Pádua

11,134

Rio Bonito

11,020

 

 

                    Face    o   exposto,   conclui-se   que    na  distribuição das AIH reinam interesses  muito fortes. Acima mesmo, até, da autoridade que deve integrar a formação e o exercício dos  gestores de saúde. É, pois, urgente dar cobro a essa situação.

 

                    DOS  VALORES  (ANEXOS XI  e  XII)

 

                    Este é, inegavelmente, um capítulo  delicado.  É,  também,  matéria que toca de  perto o mais  sensível  segmento anatômico  de alguns empresários da Saúde, bem como da   sociedade hodierna em geral - o bolso.

 

                    Pelo que nos foi dado demonstrar até aqui, há  um  desperdício de recursos  financeiros no âmbito do SIH, para  o qual   contribuem  elementos  das  áreas federal,    estadual   e municipal.  Dessarte não basta, sendo até pouco  justificável  no  momento,   criarem-se novas fontes de recursos.  É  indispensável, primeiro, zelar pelas que já existem.  Cumpre trazer o sentido  do "funil"  para  a  normalidade. Para tal, o  escoadouro  deve  ser  angustiado  por uma  auditoria médica eficiente que se associe  à  uma eficácia indiscutível.

 

                    Alguns   fatos   demonstram,   com    clareza  ofuscante,  que  a partilha dos  recursos do SIH  é,  para  grande parte dos municípios, um ítem significativo, quando seus valores são relacionados com as respectivas receitas efetivamente arrecadadas.

 

                    Em   03   de  abril  de   1995,   através   o  ofício PR/RJ/GAB/AB/Nº  118/95,  o   Ministério  Público   Federal solicitou  ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro  que  informasse,  por município, a receita efetivamente arrecadada  no  ano  de 1994. Esse pleito foi  atendido, dando origem ao  processo TCT/RJ/Nº  103501-5/95,  que esclareceu em  parte  o   solicitado. Foram  fornecidas as receitas efetivamente arrecadadas  em  1994,  por  31  municípios do Estado. As demais prefeituras  não  tinham, até então, apresentado as respectivas prestações de contas.

 

De posse desses elementos, em combinação  com  dados financeiros do SIH,  também referentes a 1994, construímos a tabela que se segue:

 

MUNICÍPIO                     ARREC.EFET.94             PAGO AIH 94         AIH/ARREC

                                                        (R$)                                  (R$)                       (%)    

Barra do Piraí          6.342.529,52        1.959.483,36        30,89

Barra Mansa            22.414.511,75        3.456.592,25        15,42

Bom Jardim              2.922.098,99          405.945,10        13,89

B J do Itabapoana       3.150.337,00        3.912.453,30       124,19

Campos                 38.907.781,95       13.947.610,35        35,85

Casemiro de Abreu       6.835.187,48          488.638,04         7,15

Conceição de Macabu     2.486.556,32          435.505,90        17,51

Eng.Paulo de Frontin    1.786.921,65          995.103,93        55,69

Itaboraí                6.682.843,56        8.550.653,75       127,95

Itaguaí                11.052.183,33        1.262.160,72        11,42

Itaperuna               6.870.077,65        8.425.985,06       122,65

Laje do Muriaé          1.431.921,27          508.421,18        35,51

Macaé                  25.939.127,60        2.244.783,59         8,65

Magé                   10.079.396,27        2.692.288,66        26,71

Mangaratiba             4.049.035,78          413.649,84        10,22

Maricá                  4.693.108,00          379.873,45         8,09

Miguel Pereira          3.032.134,31          928.847,54        30,63

Nilópolis              10.753.187,76        3.368.523,93        31,33

Niterói                59.614.370,68       17.570.144,80        29,47

Paracambi               3.917.893,25       13.374.968,85       341,38

Petrópolis             45.815.877,45       15.704.446,86        34,28

Piraí                   5.136.315,79          457.682,01         8,91

Rio Claro               2.736.712,32          299.938,87        10,96

Santo Antonio de Pádua  3.723.304,15        2.459.116,24        66,05

São João de Meriti     14.260.453,79        7.332.964,64        51,42

S.J.Vale do Rio Preto   2.411.430,17          234.019,23         9,70

Silva Jardim            4.166.016,47           42.547,78         1,02

Teresópolis            11.667.494,64        5.154.276,38        44,18

Três Rios               6.511.179,43        2.002.487,13        30,75

Valença                 5.806.756,97        2.112.314,13        36,38

Vassouras               2.870.821,28        2.092.414,69        72,89

                      --------------      --------------        ------     

TOTAIS                338.067.566,58      123.213.841,56        36,45

 

 Como  se vê, considerados os totais,  somente  com  internações  hospitalares,  o   erário  federal  despendeu  o equivalente   a  36,45%  do  total  das   receitas  efetivamente  arrecadadas em 1994, pelos 31 municípios listados. Unitariamente,  alguns  municípios  consumiram mais do que uma e até duas vezes  a sua arrecadação efetiva.

 

                    Sob nossa ótica, é nesses valores absolutos e  relativos   que   reside  a  motivação   que  levava  o   SIH   a, estranhamente,  marcar  as AIH apenas por estados, permitindo  a  livre  circulação  desses documentos do âmbito estadual  para  os  municipais  e  até  entre   esses.  Distribuir  recursos  de   tal magnitude, absoluta ou relativa, deve estar sendo encarado   pelos governos   estaduais  e  municipais  como  "exercício  de   poder  político". Afinal,  abençoar municípios e hospitais com  "demanda" sempre se traduz em dividendos.

 

                    Hoje em dia, não encontramos barreira  alguma  que  detenha  a  livre circulação  das AIH.  As  séries  numéricas transitam  livremente, podendo ser cobradas     em qualquer âmbito: estadual   ou  municipal.  Assim  sendo,  uma  AIH   inicialmente  distribuída  pelo   Ministério da Saúde para o estado do  Acre,  se devidamente  preenchida por um nosocômio  situado em um  município de Santa Catarina, será remunerada, pelo SIH, em benefício deste.  Note-se que o pagamento terá como destinatário um estabelecimento situado  fora  do estado  para o qual, inicialmente, a  AIH  havia sido atribuída.

 

                    Para demonstrar a importância do conteúdo  da  tabela supra, geramos o Anexo XI. Esclarecemos, por especialidade efetivamente  exercida e por hospital, os valores  e   internações pagos.   Permitimo-nos,  todavia,  acrescentar  algumas   ilações  decorrentes dos  números enunciados: total pago, custos médios  de internação,  leito-ano  e paciente-dia.   Referimo-nos  também  ao quantitativo de leitos existentes cadastrados e ao somatório  dos  pacientes-dia  gerados; tudo no ano de 1994.  Convém,  outrossim,  ressaltar que o Anexo XI   se apresenta  ordenado, de  forma decrescente ,  por totais de valores pagos aos hospitais.  Nele,  não foram  incluídos nosocômios que, embora cadastrados no SIH, nada  cobraram  no  período estudado. Ao final, poderão ser  encontrados os  totais  gerais - respeitados os mesmos  ítens -  ocorridos  no Estado do Rio de Janeiro.

 

                    Produzimos,  igualmente,  outro  relatório  -  Anexo XII - que arrola, destarte, os  mesmos dados, por município. Incluímos, desta feita, municípios que, por serem de   emancipação recente, não se encontram cadastrados como sede dos hospitais, no  SIH. Se bem  que suas populações tenham sido enumeradas de per si, nos respectivos cômputos foram  anexadas aos municípios de origem. Pretendemos, assim, deixar elaborado um programa, que  futuramente possa acompanhar a nova divisão geopolítica, no que tange ao  SIH  no Estado do  Rio de Janeiro. Claro é que o cadastro do SIH  deve estar   sempre  atualizado,  em   consonância  com  as   dinâmicas intrínseca e extrínseca dos elementos que o compõe.

 

                    A  simples  observação  da  proporcionalidade  apresentada entre os valores  despendidos por hospital e município retrata,  tal  qual  a distribuição de rendas em nosso  País,   a existência de cidadãos, nosocômios e municípios que se situam  em  diversas categorias.  Sabemos que os custos variam com o porte  do atendimento.  O  incrível,  porém, é não se  ofertar  a  todos  os munícipes,  neste estado, oportunidades senão iguais, pelo  menos  assemelhadas. A distribuição dos recursos, que em última  análise  são  representados pelas  AIH, precisa urgentemente ser  conduzida por  elementos competentes. É irresignável que  sejam incólumes  à influências  outras,  que não a nosologia do  público  alvo.  Não estamos,   de maneira alguma, generalizando os administradores  da Saúde.  Sem dúvida, no meio desse  joio existe trigo  que  precisa urgentemente ser apartado.

 

                    Tentamos, para melhor ilustrar este trabalho,  conseguir  informações  sobre  a   distribuição  das  Unidades  de Cobertura  Ambulatorial (UCA), no Estado do Rio de  Janeiro.   Não conseguimos.  Mas,  estatisticamente, no Brasil,  sabe-se  que  o  Ministério  da  Saúde   gasta  com as "UCA" pouco  mais  do  que  os dispêndios  com o SIH. Se olharmos para a  equação que tipifica  o numerário  concernente  à  soma "AIH + UCA",  teremos  uma  visão  significativa da magnitude do poder que essas verbas representam.

 

                    É   preciso  montar  guarda  para  barrar   o  desleixo  no  zelo que deve nortear   essa  distribuição.  Afinal, estão  em jogo valores, muitas vezes, superiores às arrecadações  efetivas  dos  respectivos  municípios.  É  mister  preservar   a  salubridade desses Sistemas (SIH e SIA).

 

                    Por   tudo   que  vimos,  trata-se   de   uma  importante  alocação  de recursos. Esse   aquinhoamento  não  pode ficar exclusiva e simplesmente à mercê do "poder". Deve, isso  sim,  ser  submetido, sem tergiversações, à demanda  real.  Atualmente,  assim não ocorre.

 

                    É  visível  que para  chegarmos  ao  conteúdo  deste  relatório  fizemos uma longa  viagem através  de  provas  e documentos,  todos  aqui publicados. Deparamo-nos  com   paisagens tristes, que afrontam a lógica, o bom senso e a justiça.

 

                    É vital romper esse círculo vicioso. Se assim  não  ocorrer, certamente, até os  atuais escombros da  assistência médico-hospitalar oficial perecerão. 

 

                    Eis o relatório.

 

                    À consideração superior.

 

                    Rio de Janeiro, 26 de julho de 1995.

 

Valoração dos ANEXOS por hospital 

Relação dos hospitais e respectivos anexos em que estão listados

Relação dos Hospitais envolvidos, por ordem descendente de Valor  (e IPL/Laudo de cada hospital)

O efeitos da ação do MPF no SUS, devido à esta auditoria, podem ser constatados em:   http://goo.gl/Cy8eLV 

URL reduzida : http://goo.gl/3Seurx

Um mesmo cartão foi usado para cobrar por internações de mais de cem pessoas. O governo vai ter dificuldade para combater a fraude nas internações fictícias.
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